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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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Editora: 12min
Em poucos meses, o vocabulário da diplomacia voltou a ocupar o centro do noticiário internacional depois de anos em que apenas o vocabulário da guerra parecia ter espaço. No Oriente Médio, um cessar-fogo nervoso entre Israel e Irã sobrevive a sustos quase diários, mediado por Catar e Paquistão. Em Washington, a Casa Branca fala em acordos a cada poucas semanas. E nesta quinta-feira, dia quatro de junho, foi a vez de Kiev entrar nesse coro. Volodymyr Zelensky publicou uma carta aberta endereçada a Vladimir Putin com um pedido que, dito assim, soa quase banal de tão repetido: chega de guerra.
A carta tem peso justamente porque é incomum. É a primeira mensagem pública que o presidente ucraniano dirige diretamente a Putin desde o início da invasão em grande escala, em 2022. Em pouco mais de duas páginas, Zelensky propõe um encontro presencial entre os dois, fora da Rússia e fora da Ucrânia, e declara que Kiev está pronta para um cessar-fogo total enquanto durarem as negociações. Cita Suíça, Turquia e países do mundo árabe como possíveis anfitriões. Sugere definir logo uma data. E faz questão de descartar a ideia, repetida com sorrisos pelos representantes russos, de que ele poderia simplesmente ir a Moscou. Depois de mais de duas décadas de hostilidade, argumenta, não há nada que um líder ucraniano possa resolver na capital russa, assim como não haveria nada para um líder russo resolver em Kiev.
O tom, porém, está longe de ser conciliador. Zelensky abre lembrando que, quando Putin chegou ao poder há mais de vinte e seis anos, boa parte dos ucranianos o via com simpatia. Era assim, escreve, mas isso já é passado. A partir daí, a carta alterna o convite com a advertência. O presidente ucraniano cita relatórios de inteligência segundo os quais o exército russo perdeu mais de trinta mil soldados, entre mortos e feridos graves, somente no mês de maio. Afirma que a maioria dos russos está cansada da inflação, da falta de combustível e dos ataques de drones de longo alcance que já alcançaram São Petersburgo, a mais de mil quilômetros da fronteira.
A esses números soma um retrato de isolamento. Zelensky lembra que a Rússia recorreu à Coreia do Norte para sustentar o esforço de guerra e que hoje depende da China como nunca antes em sua história. E lança um aviso direto: se Putin não concluir, por conta própria, que é hora de encerrar o conflito, a Ucrânia continuará lutando, e o desgaste pode ameaçar não a Rússia, mas a posição pessoal do próprio Putin.
A carta também toca em feridas internas. Zelensky lembra o motim das próprias forças militares russas contra o Kremlin, cujo aniversário se aproxima em vinte e três de junho, e afirma que oficiais, empresários e propagandistas hoje olham para Putin com cansaço evidente. O recado é calculado. Sugere que a ameaça à estabilidade do regime não vem de fora, mas de dentro. Para um líder que construiu sua autoridade sobre a promessa de ordem, é o tipo de lembrete que só não dói mais do que o relatório de baixas no front.
Há uma frase que resume essa lógica fria. Quando a Rússia se cansa, escreve Zelensky, mudanças acontecem. É um fato da história russa, e não uma ameaça. A diplomacia, nesse enquadramento, não é um gesto de boa vontade. É uma conta que se faz quando o custo de continuar supera o de parar. O presidente ucraniano inclusive devolve a Putin uma expressão que o russo costuma usar: precisamos fazer as contas.
Respostas que revelam o impasse
As reações vieram rápidas e reveladoras. O Kremlin afirmou ter visto a carta e disse que Putin seria informado de seu conteúdo. O porta-voz Dmitry Peskov repetiu o convite que Zelensky havia justamente recusado: o ucraniano pode vir a Moscou quando quiser. Putin, em declarações anteriores, já havia condicionado qualquer encontro à existência de um acordo de paz pronto para ser assinado. Ou seja, o líder russo não quer negociar para chegar a um acordo. Quer um acordo pronto para então aparecer na foto. A distância entre as duas posições não é de detalhe. É de método.
Dos Estados Unidos, veio o entusiasmo morno de Donald Trump. Seria ótimo se eles se encontrassem, disse o presidente americano no Salão Oval, acrescentando que ambos os lados teriam de ceder. Mas a própria carta de Zelensky reconhece, com franqueza incomum, que a atenção de Washington está em outro lugar. Com os Estados Unidos concentrados no Irã, escreve ele, seria um erro apenas esperar que a guerra na Europa volte ao centro das prioridades americanas. A frase é mais do que um desabafo. É o reconhecimento de que a Ucrânia precisa agir antes que a janela diplomática se feche, ocupada por uma crise mais recente. Não por acaso, Zelensky propõe envolver Europa e Estados Unidos como garantidores de uma futura arquitetura de segurança, e oferece como prólogo uma troca total de prisioneiros e o retorno de civis e crianças levados durante a guerra.
E aqui está o ponto que separa a notícia da euforia. Proposta de paz não é paz. O histórico recente é generoso em lembrá-lo. Os Acordos de Minsk, assinados em 2014 e 2015 para conter a guerra no leste ucraniano, fracassaram justamente porque foram costurados às pressas, cheios de fórmulas ambíguas e grupos técnicos que serviram mais para ganhar tempo do que para resolver questões de fundo. O próprio Zelensky cita Minsk na carta como o exemplo a não repetir. Ele pede respostas diretas entre os dois líderes, sem se esconder atrás de comissões e diplomacia indireta. É uma lição aprendida na pele.
No Oriente Médio, a mesma cautela se aplica. O cessar-fogo entre Israel e Irã, anunciado com pompa, segue frágil. Drones hostis continuam a sobrevoar o Golfo, o Estreito de Ormuz permanece parcialmente bloqueado e as negociações sobre o programa nuclear iraniano avançam aos solavancos, com propostas sendo classificadas de inaceitáveis quase no mesmo dia em que surgem. A trégua existe no papel e nos discursos. No terreno, ela respira por aparelhos.
A coincidência das duas crises não é mero acaso de calendário. Ela revela algo sobre o momento. Há um cansaço acumulado, econômico e humano, que empurra os beligerantes para a mesa. E há líderes que perceberam o valor político de aparecer como pacificadores, mesmo quando os fatos no campo ainda dizem o contrário. A paz virou coqueluche porque a guerra ficou cara demais para todos. Mas vontade de parar e capacidade de combinar os termos da parada são coisas distintas.
O cálculo por trás da carta
O que a carta de Zelensky tem de mais notável talvez não seja o convite. É o cálculo por trás dele. Ao tornar pública uma mensagem normalmente reservada aos bastidores, e ao enviá-la também a outros países, incluindo os Estados Unidos, o presidente ucraniano transfere a pressão para Putin diante de uma plateia global. Se a Rússia recusar, fica claro quem não quer negociar. Se aceitar, a Ucrânia ganha o cessar-fogo que pede há tempos. É uma jogada que mira tanto o adversário quanto a opinião pública dos aliados, num momento em que o apoio ocidental dá sinais de fadiga.
Resta a pergunta que nenhuma carta responde sozinha. Putin lerá o documento como uma saída honrosa ou como mais uma provocação? A história das últimas duas décadas recomenda prudência. Mas a mesma história ensina que regimes de guerra prolongada raramente terminam por decisão tranquila. Terminam quando o custo se torna insustentável. Zelensky apostou que esse momento se aproxima. O mundo vai descobrir, nas próximas semanas, se ele leu a conta corretamente.
Acompanhe a resposta formal do Kremlin nos próximos dias, e não as declarações de bastidores. A diferença entre um convite para Moscou e a aceitação de um país neutro dirá, na prática, se há disposição real para negociar ou apenas para administrar a narrativa.
Use o caso de Minsk como filtro de leitura. Sempre que um anúncio de paz vier acompanhado de comissões técnicas, prazos vagos e fórmulas abertas, vale lembrar que foi exatamente esse desenho que naufragou entre 2014 e 2015. Acordo sério costuma ter data, escopo e garantidores definidos.
Observe o preço da energia e os mercados como termômetro paralelo. Cessar-fogos no Golfo e sinais de negociação no Leste Europeu tendem a se refletir no petróleo e no câmbio antes de se confirmarem na política. Para quem acompanha economia, esse é um indicador menos sujeito a retórica.
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